sexta-feira, 28 de maio de 2010

palco de malandro

E mais uma vez, no mesmo lugar, mais uma vez você. Mais uma vez com aquele meio sorrisinho malandro, com os mesmos cabelos desarrumados, agora grisalhos – porque você não passa, mas o tempo sempre, sempre igual e sempre diferente.
Você sentado naquela cadeira tão igual a tantas outras que já estivestes, com o mesmo jeito debochado, com as mesmas decadentes companhias, com os mesmos versos decorados que agradam o mesmo tipo medíocre de gente. Você ali com as mesmas mãos no violão, tocando e cantando e olhando sorridente e atrevido para as mesmas mocinhas ingênuas de pernas bonitas. E as suas mesmas idéias, suas mesmas politicagens, seu mesmo rebanho atraído pelo seu mesmo jeito, pelo seu mesmo porte, que já cheira a mofo, mas que não perde a gala e o magnetismo. Você continua no seu palquinho construído com essa sua encenaçãosinha barata, mas convincente. Você continua sendo e vivendo o mesmo personagem que criou na juventude. Você continua preso a si mesmo, ao que criou para se proteger das dores, da vida, dos grandes sentimentos. Você que se protege, ainda, nesse caminho já tão traçado, e tão “certo” e que não te dá mais prazer (se é que um dia realmente te deu), mas que te dá posição, que te dá “paz” e que te conserva o lugar fixo na mesma mesa de bar.
Você que continua ostentando os mesmos acordes calejados aprendidos em rotinas diárias de ressaca em que a força que tinhas só podia mover as cordas de um desafinado violão e imitar trocadilhos e redondilhas. E você conserva esse seu “dom” que não avança nem desata como se fosse uma das grandes penas de seu rabo de pavão.
Você ainda tem os mesmos conceitos outrora moderninhos, hoje manjados, você é um velho moderninho. Você que conhece os grandes malandros da vez, não perde a popularidade, vive sempre cercado de gente, apesar de a cada mês ter um novo e diferente melhor amigo. Você que tem todas as mulheres, pois a muito aprendeu o jeito de tocá-las, e o jeito de impressioná-las, só não aprendeu o jeito de mantê-las; assim como não aprendeu o jeito de manter nada na vida. A escola da vida que você freqüentou não ensinou, ou foi você que não quis aprender, como solidificar relações, afetos, ou sentimentos. E, no entanto, o verbo “solidificar” é o que mais se enquadra à sua figura. Você é uma rocha em si mesmo, se autoconserva, por isso a realidade a sua volta é sempre a mesma, você sempre busca a mesma realidade. O mundo a sua volta muda, você não muda o seu mundo. E o mundo é feito pelos olhos.

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